WoW! REVIEW – PARTE 2: O kitsch do Lovelyz invade a nossa casa

WARNING: Esse post é uma continuação da review de WoW!, recomenda-se que seja lido depois da PARTE 1. Ou você pode me ignorar e fazer o contrário do que eu disse, eu não mando na sua vida mesmo.

Graças ao Carnaval eu fiquei com bastante tempo livre e eu tinha tanta coisa pra comentar desse comeback que o post acabou se dividindo em dois. Aqui eu vou falar do MV e alguns temas relacionados a ele.

Em primeiro lugar, eu tenho que dizer que amei o clipe. Ele não é tão quirky quanto eu gostaria e não curti as cenas de dança, mas ele é lindo e o tema… eu vou falar bastante dele.

As integrantes estão lindas! Eu não entendi muito bem por que a Yein estava com um cabelo no teaser grupal, outro cabelo no teaser individual e agora apareceu com um completamente diferente no MV… o que aconteceu aqui!?? Mas nem vou reclamar porque o do MV foi meu favorito de longe.

Os easter eggs são demais. O meu favorito só pode ser a reprodução da capa de Hi~ com a Jisoo no topo cercada por flores, é uma representação muito boa do quão agridoce é a memória dessa era. E tem fotos tiradas por fãs também, o que faz o comeback realmente parecer uma cartinha de agradecimento a eles… Isso quer dizer que só os Lovelinus vão se identificar com o vídeo? Não. Porque o MV não é só sobre o Lovelyz, mas sobre toda a cultura capopeira.

Lembram quando eu falei que o conceito dessa vez era Pop Art? Se vocês foram atentos, repararam que eu acertei, as referências estão lá. E garanto que elas não foram colocadas gratuitamente.

Durante a Segunda Revolução Industrial, houve o boom da produção em massa de bens de consumo. A partir disso praticamente tudo passou a ser manufaturado, inclusive a arte. Essa mudança não foi bem aceita pela comunidade artística, um exemplo disso sendo o ensaio “Vanguarda e Kitsch” de Clement Greenberg, no qual ele condenava a massificação da cultura.

Anúncios publicitários, histórias em quadrinhos, filmes de Hollywood… nada disso era arte de verdade para ele, era kitsch: uma degradação da cultura, uma “arte mentirosa”, que apenas saciava a fome de cultura das classes mais pobres da sociedade que não possuíam recursos ou conhecimento suficiente para apreciar cultura. Essa perspectiva só começou a ser desconstruída mesmo no final dos anos 50, com a Pop Art.

A Pop Art retirou o sentido pejorativo do kitsch e quis quebrar as fronteiras que separavam a arte e a vida cotidiana. Ela incorporou à arte símbolos associados à cultura de massa: de quadrinhos a imagens de celebridades. E como não poderia deixar de ser, a música pop é a mais kitsch de todas.

Diferente da maioria dos outros gêneros, o Pop não vende só a música. Não vou choramingar se minha banda de heavy metal favorita anuncia que o guitarrista X será substituído por Y. Mas se a minha bias sair de sua girlband eu vou espernear, e se minha boyband com 13 integrantes bonitinhos de repente adiciona 2 chineses bonitinhos eu irei protestar na frente do prédio da agência para ameaçá-la.

Isso porque a música Pop trabalha para criar esse apego emocional dos fãs com os cantores. Porque você não quer só música boa; você quer amar quem a canta, quer que o visual dele te agrade, quer saber que seu ídolo é um exemplo de bom ser humano, quer fazer um ranking dos Top 10 [insira algo inútil aqui] num fórum, quer comprar as roupas da grife dele, o perfume do qual ele fez comercial…

Reparem que eles mostram mais a celebridade do que o perfume

E esse apego emocional não é resultado de uma conexão divina espiritual entre você e o artista, mas parte de um plano meticuloso de uma indústria para te fazer consumir mais, caso você não saiba. Digipedi já tratou dos negativos dessa relação, mas será que não há positivos?

As sensações que o MV de WoW! pode trazer ao fã depende do que as imagens despertam em sua memória afetiva. Quando eu vi as bolas de gude de Destiny ou as bolhas de sabão de Hi~, eu me lembrei de como Lovelyz renovou o meu interesse no K-Pop em 2016. Mas para outro fã vai significar outra coisa, porque a relação dele com o grupo é diferente da minha.

O K-Pop faz parte da nossa vida e das nossas lembranças. Por cinco sete anos, eu acompanhei cada lançamento do 2NE1 e se eu nunca tivesse conhecido o grupo, hoje eu teria várias memórias diferentes desses anos.

E não há nada de errado em gostar de um grupo, afinal são eles quem fazem do K-Pop um escapismo tão legal. Se você quer o K-Pop como hobby, mas passa a encarar tudo dele com puro cinismo, você acaba perdendo grande parte da diversão que ele pode proporcionar. Eu tive essa fase amarga de dar play num MV recém-lançado procurando pelo que criticar e de ouvir uma música pela primeira vez já analisando detalhadamente o porquê eu deveria ou não gostar dela. Isso é chato pra cacete.

Você tira o divertido de acompanhar o Capope e vira aquela pessoa sem noção que vai ao cinema assistir um blockbuster só pra ficar dizendo “mó mentira” a cada cena de efeito especial. Eu SEI que chimpanzés não falam, tio, talvez você não deveria ter me chamado para assistir a Planeta Dos Macacos SE VOCÊ IA PASSAR DUAS HORAS ME LEMBRANDO DISSO!!!

“AI MEU DEUS, W-Dragon, é verdade! O K-Pop é a razão da minha existência! Meu bias canta com tanto sentimento!!! Então podemos venerar o capope e colocá-lo no centro da minha vida? \o/”

— Fangirl iludida

Onde você leu isso, minha filha??? Quer parar de ficar dando F5 no Youtube por um minuto e prestar atenção aqui no texto?

O fato de eu gostar de um idol não significa que eu deva escanear a Internet atrás de pessoas que não gostem dele e torturá-las até que elas o reconheçam como um ser humano superior. PELO AMOR DE DEUS, QUE DIFERENÇA FAZ QUE FULANINHA TEVE MAIS VIEWS NO YOUTUBE QUE MINHA BIAS? Vocês acham que eu me lembro quais recordes pertencem a Wonder Girls, 2NE1 ou SNSD quando as ouço? Ou qual foi a opinião de @RenatinhaJung_16 sobre “Fantastic Baby”?

Os fãs hoje em dia estão focando patologicamente nessas bobagens ao invés de apenas curtirem a porcaria da música. Com isso você só transforma o que deveria ser algo prazeroso em uma experiência estressante e atordoante.

Mas os Lovelinus não se importam com isso, pelo visto

Apreciar a cultura de massa não significa ter uma visão deslumbrada dela. A arte pop não era acrítica à sociedade consumista. Quando Andy Warhol fez os quadros da Marilyn Monroe não foi porque ele a achava um ser humano sublime a ser venerado, mas porque era uma figura vazia.

Ao reproduzir o rosto da Marilyn repetidas vezes, Warhol colocou ela em igualdade às latas Campbell’s, isso porque quem está representada ali não é a Marilyn pessoa, é a Marilyn ícone que a gente consome até hoje.

G-Dragon, HyunA, Amber, Rap Monster, Taeyeon, Onew… eu não conheço essas pessoas. Eu conheço as suas figuras. Porque minha relação com os idols é uma relação de consumo, não de intimidade. O que eu interajo é com a imagem deles, seja na tela do computador ou no papel de um pôster.

E isso tá representado no vídeo de WoW! muito bem: quem está na casa não são as integrantes de verdade, são as figuras de papel que ganham vida aos olhos do fã.

Eu amo a Yein, mas na minha vida, a presença dela é igual a do Mickey Mouse, do Homem-Aranha ou do Chaves. A pessoa Yein existe e ela pode ser um amor de garota ou o demônio em forma de gente, mas de qualquer maneira ela NÃO é a Yein que eu conheço. A Yein que se faz presente na minha vida é uma figura bidimensional, vazia de humanidade.

Você não deve acompanhar o Capope com uma visão embevecida quase religiosa, mas não precisa ser com uma visão desdenhosa também. Deixa a fantasia do Capope entrar na sua vida, mas não deixa ela ser a sua vida.

Digipedi conseguiu fazer um MV com uma mensagem muito relevante a passar. Uma música melhor poderia ter deixado esse comeback nota 10 em todos os quesitos, mas podemos apreciar o 10 em Alegorias & Adereços e o 10 em Enredo que temos aqui. Bom Carnaval!

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14 comentários sobre “WoW! REVIEW – PARTE 2: O kitsch do Lovelyz invade a nossa casa

  1. “Você não deve acompanhar o Capope com uma visão embevecida quase religiosa, mas não precisa ser com uma visão desdenhosa também. Deixa a fantasia do Capope entrar na sua vida, mas não deixa ela ser a sua vida.”

    Eu infelizmente não consigo fantasiar mais nada na vida, passei muito dessa fase, e era/sou uma grande desdenhadora de pop em geral…mas 2ne1 mudou um pouco minha visão do gênero na Coreia…e a tendência agora é só voltar ao que era antes pra mim, já que não vejo nenhum outro grupo novo que pode preencher a lacuna delas (BLACKPINK who?)…mas uma coisa é certa! o pessoal por traz das cortinas de glitter do kpop, sabem criar um aura lúdica e atrativa…isso é o maior atrativo do kpop, mas a ilusão é tão bem composta…que as vezes também pode virar seu pior defeito!

  2. Nossa, que review bacana w-dragon *_* é uma mensagem bem necessária hoje em dia mesmo, cansei de acompanhar gente se estressando porque “grupinho tal é sem talento e faz mais sucesso que meus biases hyper talentosos que escrevem as próprias músicas e sofreram muito pra chegar onde estão *-*”
    Eu possivelmente não teria feito essa interpretação se eu tentasse, eu provavelmente ia estar rindo da menina sendo assoprada pelo ventilador e tals, então parabéns ai pela paciência e.e não sabia que tu gostava tanto assim do lovelyz @_@
    Já tá chegando num nível army de interpretação, não é legal!? =^o^=

    • “Já tá chegando num nível army de interpretação, não é legal!? =^o^=”
      HAHAHAHAHAHAHAHA eu não chego nem aos pés das ARMYs em interpretação. Minha vantagem foi que eu já tinha uma familiaridade com Pop Art e o teaser do MV deixou bem claro do que ia se tratar. Tanto é que o rascunho já tava bem grande só com o que eu tinha visto no teaser.

      É mais uma análise do que uma teoria, na verdade, porque eu não quis ficar apontado o que cada cena significa, eu quis mais dar uma ideia geral para os leitores terem uma base pra analisar o vídeo por si mesmos. @_@

  3. Alguém dê um OSCAR pare este ser que eu mal conheço e já amo pacas *=* , sério que review fantástico , bom trabalho ^-^
    Por mais que eu tenha adorado a música concordo que não é a melhor coisa que elas ja lançaram xD , ainda assim é bem agradável e ” catchy ” .

  4. Eu achei q esse fosse um mv normal (se é q existe mv normal no kpop) e q n passava msg nenhuma por trás, mas fui trouxa. É difícil uma produção de Digipedi n passar alguma msg, eu preciso prestar mais atenção.
    Concordo plenamente com tudo o q foi falado nesse post. Cade a Armys nessas horas pra ler? Mas n vou invocar elas n pq vc n merece nenhuma comentarista bostejando aqui rs. As pessoas precisam parar de consumir kpop como uma coisa séria e conceitual. Kpop é puro entretenimento, é pra curtir como um gênero musical, mas as pessoas estão levando isso pra um novo patamar, ta virando quase uma religião em q a tolerância é zero. Oremos pra q um dia esses novos fãs amadureçam mentalmente e passem a ver o kpop como ele realmente é: Entrentenimento.

  5. Nossa, que review ótimo, parabéns ❤ me fez até dar uma segunda chance pra Lovelyz que eu sempre achei bem mais ou menos (Destiny foi o ponto alto delas pra mim, todo o resto é muito aguado já que eu sou de extremos e curto ou drama total, ou farofa total hahaha).

    Adorei os easter eggs (coisa que eu, como não fã, nem sabia ou repararia sozinha) e a referência à pop art, com sua reflexão sobre o pop em geral e como essa ligação emocional é totalmente forjada. Me peguei meio reflexiva pensando que pois é, meus bias nem sabem quem eu sou e nem eu sei quem são eles, mas é bom pra manter o balanço dessa fantasia do kpop na nossa vida. Enfim, maravilhoso <3.

    A música ainda não grudou na minha cabeça, mas certamente assistirei o MV com outros olhos. Obrigada 🙂

  6. Uau! Que belo texto!! Gostei demais!! ❤
    Tive um reflexão e tanto aqui.

    Por um momento você quase destruiu a conexão que tenho com minha bias. Mas já passou, ufa.
    Vc não pode fazer isso com as pessoas sabia? Mas tudo bem, nada no mundo pode mudar o fato de que eu vou casar com minha bias um dia!! *-*
    Te amo Eunji!!!111!!!1! ❤

  7. Texto excelente. A parte 1 foi bacana, mas essa aqui foi sensacional! Lembro que umas semanas atrás deu um polêmica porque num dorama um mano do EXO faz um artista (inovação 10/10) e chama as fãs de caixa-eletrônicos… a treta foi tão maligna que cortaram a cena; enquanto rolava uma discussão eu disse que de certa forma era verdade, porque ao passo em que eles não ligam pra gente como pessoas, nós também não ligamos para eles, é uma relação básica de dar dinheiro e receber entretenimento – ninguém lembra que eles passam fome pra criar abs, dormem 3 horas por dia, lidam com todo tipo de assédio e não podem nem pegar um bronze, as pessoas só lembram que fulano estava sensacional no Raul Gil da semana passada.

    Nem consigo começar a descrever o tanto de resposta psicótica que recebi.

    O pior de ser capopeiro velho não é nem achar grupo ao qual se apegar e sim passar a ver certas coisas que você não vira quando tinha 13 anos e achava tudo sensacional.

    • Acho que isso é o pior, mas também é o melhor. Tão bom conseguir ver as coisas com distância, saber que as tretas são inúteis, que o bias não vai querer casar com vc pq te viu esmagada na grade do show, e se divertir fazendo análises mais realistas sobre coisas que a maioria dos fãs novinhos não percebe. Mas é um saco ser minoria e ter que aguentar as respostas psicopatas quando se joga uma verdade na cara mesmo.

      P.S.: Somos todos capopeiros velhos aqui? Hahaha

    • É até impressionante você comentar isso, porque a própria Yein (que eu usei como exemplo no texto) machucou o pé e não vai participar das promoções. Então, claro, eu fico triste por ela e prefiro que ela descanse do que vá trabalhar, mas a minha relação continua sendo a de um consumidor… conscientemente ou não, eu logo penso que quero voltar a vê-la dançando e cantando assim que possível, etc. Então acho que as fangirls confundem um pouco essas sensações.

      “O pior de ser capopeiro velho não é nem achar grupo ao qual se apegar e sim passar a ver certas coisas que você não vira quando tinha 13 anos e achava tudo sensacional.”
      Totalmente! Acho até que eu teria largado o K-Pop de vez ano passado se não fossem sites que têm uma galera mais madura/debochada como o AM, porque eu fico chocado toda vez que encontro gente que ainda pensa que o bias é menos manufaturado que o do outro só porque escreve as próprias músicas e outras ilusões do tipo.

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